2009/12/19

Diz Ricardo Reis

Diz Ricardo Reis - Professor de Economia, Universidade de Columbia

De acordo com as notícias desta semana, o governo está empenhado na actualização do regime jurídico do casamento. O PSD está empenhado em ouvir escutas telefónicas para aferir o carácter moral do primeiro-ministro. O PCP e o BE estão empenhados em que os mesmos magistrados que não conseguem guardar o segredo de justiça possam ter acesso às contas bancárias de qualquer pessoa, e a persigam se acharem que ela tem mais dinheiro do que devia. O CDS-PP está empenhado em tornar-se imprescindível nos jogos políticos da Assembleia da República. E os deputados estão empenhados em insultarem-se uns aos outros.

Se me permitem, e se não os distraio demasiado destes afazeres, gostava de recordar aos nossos governantes uns pequenos detalhes. 548 mil portugueses estão desempregados. Cerca de 1,850 milhões de portugueses recebem pensão de velhice, 300 mil recebem pensão de invalidez, e 380 mil recebem o rendimento social de inserção. Para apoiar estes 3,078 milhões de portugueses, trabalham somente 5,020 milhões de portugueses. Por sua vez, a remuneração mensal média de um trabalhador, depois de impostos, está algures entre os 720 e os 820 euros. Na população activa, por cada pessoa com um curso superior, existem duas pessoas que têm menos do que a quarta classe.

Talvez estes detalhes da vida das pessoas não sejam demasiado importantes para quem tem o olho na Europa. Mas, em Outubro, Portugal só exportou 2856 milhões de euros em bens; importou 4502 milhões. A riqueza que produzimos num ano não chega para pagar o que devemos aos estrangeiros. De bons alunos vaidosos nas cimeiras internacionais, seria bom que os nossos líderes se preparassem para o novo papel de convidado que foge para a casa de banho quando se aproxima um credor.

Quatro países na UE estão com problemas financeiros semelhantes aos de Portugal, de acordo com as taxas de juro que têm de pagar aos credores. O Reino Unido e a Irlanda responderam com medidas dolorosas, que na Irlanda incluem cortes no salário dos funcionários públicos até 20%. A Grécia e a Itália, tal como Portugal, preferem assobiar para o lado. Os especuladores já começaram a atacar a dívida grega e fala-se do risco iminente de bancarrota do país. Se a Grécia cair, Portugal não dura mais que umas semanas.

Eu sei que, infelizmente, muitos comentadores estão há décadas a anunciar o fim da nossa economia, pelo que os governantes estão habituados a ignorar estes avisos. Mas depois de olhar para estes factos, como é que quem jurou servir Portugal pode passar o tempo a distinguir uniões de facto e casamentos, ou obcecado em saber se José Sócrates trata o amigo por “Mando” ou “Varinha”?

JORNAL I | 12.12.2009
Escrito por MCH at 14:30 | Link permanente | Comentário (1) |

2009/05/03

Sabedoria

O afunilamento do ensino universitário pode produzir eruditos, mas não
contribui para a disseminação do conhecimento e da sabedoria. Há dois 
versos de um poema de T.S.Elliot, que me impressionam pela sua lucidez, 
e Julien Green recomendou a todas as universidades do mundo inscrevê-los 
no frontispício de seus edifícios: "Onde está a sabedoria que perdemos no 
conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?
Escrito por MCH at 10:35 | Link permanente | Comentário (0) |

2009/04/21

GALP - ou a demissão ou Estado

A GALP explora-nos com preços proibitivos (gasolina 95 a 1.22), e o relatório Manuel Sebastião que saiu hoje, 21.04, goza connosco; levou seis meses para concluir tipo Ministro da Informação do Iraque: "Não há cartel". Pois não há. O que há é muito pior: é monopólio prático por via das duas únicas refinarias nacionais serem GALP. O resultado deste relatório não é aceitavel. Não serve os interesses básicos dos portugueses. A GALP registou lucros de 1000 milhões de euros. A GALP aproveitou-se da grande crise dos combustiveis para subir os lucros e o Estado, para que se intitule Estado, tem de tomar medidas imediatas.

Não abona a comunicação social não referir como escândalo a Entidade Reguladora levar seis meses para elaborar um estudo que se faz em seis dias.

Escrito por MCH at 13:06 | Link permanente | Comentário (0) |

2009/04/12

Reportagem, mesmo!

Em que tipo de guerra estão os EUA envolvidos com o Irão? Marta van Zeller da Vanguard foi lá ver, Where even angels fear to tread, como dizem os yankees cultos. O que andam a fazer os nossos jornalistas ? Antes um Carlos NArciso, Rui de Aráujo, ou PAulo Dentinho estavam nas linhas da frente. A alguns cortaram-lhes as carteiras, a outros perguntem-lhes!

 

Escrito por MCH at 18:19 | Link permanente | Comentário (0) |

2009/04/03

O G 20 e a Avestruz

O provincianismo português está a vir ao de cima no meio da governamentalização em curso. Enquanto a longa marcha dos G20 lá teve mais um passo em Londres, não consta que Durão Barroso tivesse uma única palavra sobre Portugal até porque no seu blog nem consta a nossa língua. Que bom é ter dois chapéus para esconder a falta de verticalidade da cabeça! Nem consta que Francisco Louçã estivesse entre os anarquistas da antiglobalização que partem montras; estará já a preparar-se para a aliança com as cisões do PS à esquerda, ou para ser ministro de coligação após 5 de Outubro de 2009? Entetanto, vemos os jornais preocupados com Lopes da Mota que, antes do Eurojust, foi secretário de Estado da justiça de Guterres e exerceu funções em Felgueiras; preocupados com um Licínio Batista, nome improvável de imperador romano e de uma confissão cristã mas cuja profissão é apitar jogos. Mas não se preocupam que na Assembleia, a ministra da Educação pretendesse passar a palavra a um ajudante, tratando os deputados como adjuntos da governamentalização em curso; preferem ficar ao portão da Procuradoria-Geral da República, para que a Drª Cândida Almeida diga coisas, entre corvos e papagaios. O provincianismo português está nisto: olha com admiração para a cimeira do G -20 e, qual avestruz impotente enterra a cabeça na areia, pensando que está escondido porque nada vê. Estamos nisto; uma sociedade global com economia e geofinança globais, mas sem uma república global de regulação da economia e das finanças. Mas Portugal, perdido entre lícinios, lourdes, cândidas e lopes nem sequer está interessado em bater-se pelo seu lugar.

Escrito por MCH at 13:47 | Link permanente | Comentário (1) |

2009/04/02

É oficial!


É oficial. Naregião de Zamora, em Puebla de Sanabria, vai parar a linha de alta velocidade de Madrid a Galiza. Esta estação será localizada em Otero, a três quilômetros de La Puebla de Sanabria.
A decisão de instalar uma estação AVE em Puebla de Sanabria responde aos pedidos dos moradores e também dos municípios trasmontanos  para uma estação de passageiros.
Por estranho que pareça, é esta a notícia que vai desbloquear todo o plano ferroviário para o Norte de Portugal.
Ver aqui
Escrito por MCH at 14:58 | Link permanente | Comentário (0) |

2009/04/01

Perguntas Proibidas


A partir de amanhã, 2 de Abril, estarei com outros militantes de ideias do IDP no programa "Perguntas Proibidas" que irá para o ar todas as 5ª feiras das 18h00 às 19h00 na Rádio Europa 90.4
O lema do programa é "No tempo da Inquisição proibiam-se as respostas. Será que com a
liberdade de imprensa se proibem as peguntas ?"

Será abordada a actualidade nacional na suas vertentes cultural, social, económica e política.
E agradece-se à Antonieta Lopes da Costa, directora da Rádio Europa, o extraordinario acolhimento que deu ao projecto.
Aqui o podcast
Escrito por MCH at 14:43 | Link permanente | Comentário (0) |

2009/03/31

Contra o suicídio ferroviário!

A 25 de Março de 2009 o Governo fechou as linhas ferroviárias do Tâmega e do Corgo. Pela calada da noite e sem aviso prévio, tal como em 1992, com o troço da Linha do Tua, entre Carvalhais e Bragança, e invocando questões de segurança até agora desconhecidas, o Governo deu continuidade a uma política de “suicídio ferroviário” que vem muito de trás e que se abate sobre as populações trasmontanas e as suas perspectivas de desenvolvimento.

Todo o país deve perceber o que está em causa. Não é apenas o encerramento de umas dezenas de quilómetros de via reduzida no Norte profundo; nem o direito de mobilidade negado a milhares de habitantes dos vales durienses; nem a aplicação vesga de uma análise de custos/benefícios de uma linha pouco movimentada. O que está em causa é a aplicação cega de um plano nacional ferroviário completamente desfasado das prioridades de desenvolvimento do interior do país; apostado no suicídio ferroviário em favor de novas vias rodoviárias redundantes, em total oposição com as directivas comunitárias neste sector; e mostrando uma falta de visão do desenvolvimento sustentado, sem a qual jamais sairemos da crise presente.

Vem, assim, o Instituto da Democracia Portuguesa exigir a reabertura das linhas do Tâmega, do Corgo e do Tua, uma vez consolidada a segurança das mesmas. Exige-se mais respeito pelos utentes e pelas populações locais, e menos ignorância quanto às perspectivas de fomento das linhas férreas em Portugal. Espera-se do Ministério das Obras Públicas um plano nacional ferroviário integrado, ao nível do séc. XXI, e não um conjunto de medidas avulsas que tem levado a rede ao estado calamitoso que a seguir descrevemos.

O Suicídio Ferroviário» - Nota do IDP

 

Escrito por MCH at 14:24 | Link permanente | Comentário (0) |

2009/03/08

Rescaldo de Espinho

É gravíssimo! Em vez de se bater em Bruxelas pelo Tratado de Lisboa, que até tem a sua marca, e é uma forma de contrariar o directório das potências europeias, José Sócrates foi discursar à americana ao Congresso do PS em Espinho a 1 de Março; e faltou pela segunda vez a uma Cimeira Europeia . É assim que defende o Tratado de Lisboa?

É um filme político comum na nossa história. Por exemplo: Portugal venceu a Guerra Peninsular nos campos de batalha mas quando lhe pediram 15.000 homens para a campanha da Bélgica e de Waterloo, recusou-se e foi castigado no Congresso de Viena de 1815 pelas grandes potências.

Hoje os G20, onde Portugal não consta mas a Espanha sim, estão a impôr a hierarquia das potências. O que se esperava de Portugal é que se salientasse que a Europa se deveria apresentar a uma voz. Para isso tem softpower que chegue.  Louçã cedeu ao caudilhismo ao dizer que «A política europeia é um vazio». Manuela Ferreira Leite deveria ter dito que "defender o interesse nacional" seria defender o Tratado de Lisboa. Perdemos oportunidade de marcar nas declarações e dar um empurrão à entalada presidencia checa. É muito mau! Erro gravíssimo, Da próxima, dirão que já nem precisam de nós lá.

Escrito por MCH at 19:13 | Link permanente | Comentário (0) |

2008/12/24

Natal sem hipocrisias

Cada um terá o seu motivo para celebrar o Natal, seja cristão ou não.

Esse motivo muitas vezes se reduz a uma simpatia e se traduz em breves tréguas nos conflitos pessoais e sociais, simbolizadas pela troca de votos felizes e de
presentes.

Comprar mais, comer melhor, descansar um pouco é o figurino do Natal
mundano. A semana após o Natal não será muito diferente da
semana anterior. "Natal deveria ser todos os dias!". E por isso as festas desta quadra são sobretudo um ritual onde cada um projecta as fantasias que entende.

E contudo, todos os livros sagrados da Humanidade falam do homem como
atormentado por uma culpa, por uma existência precária que ele não
sabe redimir a não ser sacrificando alguém, e fazendo do seu próximo o
Bode Expiatório. A origem das violências, dos conflitos, e das guerras
passa por aqui.

E contudo, o Natal é a única festa universal porque alguém ofereceu-se
como vítima sacrificial única e definitiva, encerrando um ciclo histórico que durava desde as origens da humanidade e que era regido essencialmente pela lei do sacrifício.

O que Jesus Cristo fez foi cumprir de uma vez só essa lei do sacrifício. Antes as vítimas se
somavam: 1 + 1 + 1 + 1. .. Agora a vítima única se multiplica por si mesma: 1 x 1 x 1 x 1!. .. Façam as contas e compreenderão por que o Natal deve ser celebrado.

Esta consciência deve ser reconquistada de geração em geração. A
maioria, mesmo quando recebe presentes, esquece que eles apenas
simbolizam o ganho muito maior obtido há 2008 anos.

Esse ganho pode ser explicado em poucas palavras, segundoaRené Girard

Todos podemos viver atormentados pela culpa que produz medo, ódio,
inveja, ciúme, e busca obsessiva de aprovação. Esses sentimentos
tornam-nos vulneráveis às acusações e insinuações com um poder
incalculável sobre nós. Em busca de protecção contra esse poder,
submetemo-nos aos malvados, acreditando que quem nos fere também nos
pode ajudar. E assim nos convertemos em bode expiatório.

Cristo adverte-nos que esse sacrifício é inútil. Não existe no mundo
um poder habilitado a exigir vítimas. Deus só exigiu uma, e Ele mesmo
a forneceu. Quem depois disso se sinta culpado, deve recordar-se do
nascimento de Cristo e alegrar-se.  Ele não foi um cobrador de dívidas
mas um salvador. Nada pede! Apenas oferece. E em troca aceita qualquer
coisa pois é manso e humilde de coração.

Se sabendo disso, continuamos vulneráveis à iniquidade; se ainda
sentimos perante os malvados e os corruptos o temor reverencial e
tentamos aplacá-los com mostras de submissão para que eles não nos
castiguem, é porque ainda não acreditamos no Natal.

O Natal é simples: pede-nos para sermos bons e não temer os políticos
injustos, os ideólogos perversos, os juízes desonestos, os
investidores corruptos. Nenhum deles tem autoridade sobre nós. Não
baixemos a cabeça perante eles! Não consintamos que as nossas
fraquezas sejam exploradas pela malícia do mundo.
Jesus Cristo já pagou a nossa dívida.

Feliz Natal !

Escrito por MCH at 00:31 | Link permanente | Comentário (3) |